sábado, agosto 12, 2006

o rock levou-nos a alma

“A Marinha Grande tem sido, com maior incidência nos últimos quinze anos, um verdadeiro nicho de projectos musicais, a maioria deles com forte vertente rock, seja nas extensões punk, grunge, sónico, ou roll, seja, mais recentemente, nas extensões soul, blues e stoner. É verdade que os protagonistas deste frenesim criativo sempre foram mais ou menos os mesmos, facultando um salutar rodopio de colaborações, mas deixando, simultaneamente, a porta aberta para a entrada de novos músicos em cena. Na verdade, e que me perdoem se estou a ser injusto para com alguém, há dois nomes que emergem na cena marinhense, ambos com notável proeminência no que diz respeito ao andamento e à própria vitalidade dessa mesma cena num passado recente: Carlos Martins e Zé Lopes (também conhecido no meio como Zé Cariano). Carlos Martins mais vocacionado para a cena pop (…) e Zé Lopes mais virado para rock “underground”, com os extintos Roller Paper Boys, Daisy e Man-Hate-Man, nos Born a Lion (de onde saiu há pouquíssimo tempo), com a sua one-man-band, Mr. Bones, ou com os ( Rockin’ Shoes, que acabam de se estrear em disco. E é sobre estes que escrevemos de agora em diante, não sem antes referir que para além de músico, Zé Lopes é ainda um dos técnicos de som mais requisitados da região, desenvolvendo também trabalhos de gravação e produção no seu estúdio caseiro. O disco homónimo de estreia dos 8 Rockin’ Shoes é obra dessa faculdade adicional, e revela-nos que de facto este homem respira, transpira e emana música. O rock corre-lhe, efectivamente, nas veias! Mas o guitarrista e principal vocalista dos 8 Rockin’ Shoes não está sozinho. Acompanham-no nesta aventura dois ex-Lif: a excelente baixista Susana Marques (cuja voz também se faz, por vezes, ouvir) e o também guitarrista Rui Pereira. Completa o quarteto o baterista Ricardo Simões, mentor dos Monomonkey, ele que também passou, entre outros, pelos então Canker Bit Jesus (agora só Canker). Confusos? Não estamos, propriamente, entre principiantes…
NADAR NUM MAR DE INFLUÊNCIAS No artigo que assinei, recentemente, aqui nos JL a propósito dos excelentes Dapunksportif, atrevi-me a afirmar o seguinte: «os Dapunksportif são os nossos QOTSA. Pois sejam… há alguma banda portuguesa que não seja “os nossos qualquer coisa”?» Pois os 8 Rockin’ Shoes não são, especificamente, “réplica” de ninguém em particular, mas são, seguramente, um mosaico musical, onde podemos encontrar, claramente, um pouco de Kyuss, Mudhoney, PJ Harvey, Cop Shoot Cop, Sonic Youth, T-Rex, Nirvana e Doors. É pois neste emaranhado de dejá-écouté, que sobrevivem os vinte minutos deste disco, que é apresentado num apelativo digipack em cartão de embalagem, timbrado a carimbos, que acaba por se revelar na coisa mais original que a banda, por agora, nos apresenta… Mas como na música, a defesa de purismos e de linhagens imaculadas é, normalmente, sinal de alguma tacanhez de espírito, não me choca de todo, que possamos gozar em grande ao som dos 8 Rockin’ Shoes. Nesta música fervilhante, que irrompe de rompante ouvidos adentro, e que faz bater pés e abanar cabeças, sente-se suor, dádiva e, sobretudo (e mais importante!), honestidade. E na coerência possível que esta amalgama permite, sentir que apesar de tudo, acabamos por deslindar aqui um desempenho técnico (estético às vezes…) que confere uma certa identidade à banda, já é um sinal prometedor que nos faz ansiar com algum fervor pelo passo que a banda fará para cimentar uma sonoridade que, sendo feita de retalhos, poderá muito bem continuar a ser a sua. O empolgante Boobie Blues, o sujo e rápido Johnny-oooh!, o sónico D.One, o balanceado crescendo de Honey, o corrido (que excelentes riffs!) Love is a Killer, e o tema que mais nos fica na cabeça, Rock n’ Roll has taken our Soul, fazem então parte deste primeiro cartão de visita dos 8 Rockin’Shoes, que podem adquirir pelo convidativo preço de 3,5€ – como vem inscrito na bonita embalagem:”música é cultura”. E não devemos obstruir a cultura a ninguém, não é?

Rock on!”

by Carlos Matos, in Jornal de Leiria de 10 de Agosto